Para compreender a vocação apostólica é interessante entendermos o sentido dessas duas palavras. Portanto vamos separá-las e distinguir seus significados.
Vocação:
Nosso primeiro ponto é entender o que é vocação? Esse termo vem do latim vocare que significa chamar ou apelar. Poderíamos dizer que é um convite a exercer suas habilidades em qualquer área da vida. Em nosso caso pretendemos ser mais específicos e direcionar o tema sobre a religião. A Bíblia aponta para um aspecto um pouco diferente numa relação de eleição é um chamado para fazer a obra divina uma disposição espiritual para a missão “quase sempre a vocação estava interligada à ‘revelação’ e/ou ‘visão’. Em Paulo vemos quatro conceituações revelação vocação eleição e missão bem interligadas” (FERREIRA 2013 p. 426). A religião apresenta essa íntima relação com o chamado divino para vocação.
No Antigo Testamento vemos Davi sendo chamado por Deus entre seus sete irmãos mesmo eles sendo literariamente superiores ou melhor preparados. A escolha de Deus ou predileção por ele será exposta no relato diante de sua simplicidade ou seu coração puro. A escolha de Deus partiu na grande maioria das vezes sobre os jovens adolescentes ou crianças como vemos na Bíblia hebraica. Talvez por isso mesmo sendo mais jovem o que parecia ser o menos importante para os homens era o mais apto para o serviço destinado por Deus; assim o homem não é capaz de ver o íntimo como Deus vê (1 Sm 16,7). O menino Jeremias um adolescente que não se sentia digno do seu chamado é convencido pela profecia divina a ser um profeta para as nações (Jer 1,4-10).
No Novo Testamento o chamado é feito de diversas formas. Jesus é enviado o escolhido de Deus o filho que Deus trouxe ao mundo para salvá-lo. A vocação de Jesus veio do céu. Na bíblia talvez possamos imaginar que ele não teria escolha será que não houve alguma vez que ele pôde escolher qual caminho seguir? E se ele mesmo se sentiu compelido a agir contra o status quo e por isso foi perseguido e não precisou ser necessariamente obrigado pelo Pai ou pelo Espírito de Deus? Sua própria consciência não poderia tê-lo levado a agir contra os poderosos? Seria possível e entendemos que é uma questão pertinente. Mas em todo caso não mudaria o que aconteceu com ele.
Devemos lembrar que a história e a construção da imagem do mestre são evidentemente posteriores ao tempo em que ele viveu. Os escritores do Novo Testamento puderam recriar o mundo e a vida de Jesus baseados na tradição oral na interpretação dos fatos que aconteceram e suas palavras puderam ser direcionadas pelas profecias do Antigo Testamento. Isso não é um demérito mas uma constatação teológica importante da época.
Aos leitores da bíblia percebe-se o direcionamento que os estudiosos entregaram aos leigos. A própria escritura sagrada com seus títulos e subtítulos já direciona a leitura para a tradição. Diante disso queremos dizer que o tema da vocação de Jesus no Novo Testamento precisa ser refletido a partir das suas escolhas ou realmente existe uma imposição divina? Em todo caso para nós leitores e aos que creem na bíblia como palavra de Deus Jesus era um vocacionado desde antes do ventre seguindo o mesmo esquema profético de Jeremias. O seu chamado nos parece um apelo divino.
Entretanto para o cristão ele precisa reconhecer e desejar viver plenamente e da melhor forma para aquilo que o Espírito de Deus o chamou. A questão é entender quais são os instrumentos usados por Deus para executar o chamado. Podemos dizer que Paulo foi chamado para ser sacerdote até o encontro de damasco. Isso fez dele o apóstolo dos gentios mas se ele não tivesse se preparado durante toda sua vida estudando dedicando-se ao sacerdócio a sua conversão provavelmente não teria o mesmo impacto. Pedro mesmo cheio do poder do Espírito vocacionado como costumam dizer chamado pelo próprio Jesus com um convite direto “Não temais de agora em diante serás pescador de homens” (Lc 5,1-11) apesar de tudo que o texto bíblico apresenta seu chamado não obteve o mesmo impacto do de Paulo. Pedro poderia ter dito não mas ele aceitou o apelo ou chamado. Mesmo assim ele não obteve o mesmo sentido ministerial para a Igreja como Paulo pois o preparo fez do apóstolo dos gentios apto a fazer a obra de forma mais completa.
A teologia discute até hoje dois temas relevantes que aparecem na bíblia livre arbítrio e predestinação. Temos esses dois discursos recorrentes em muitos textos tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. Isso pode ser discutido em relação à vida comum ou mesmo no sentido ministerial. Assim essas correntes teológicas são muito mais predileção dos autores dos textos ou seja esses conceitos pertencem às escolas que cada escritor acredita sem falar que em certos momentos eles mesmos invertem a questão sem problemas. E assim há em alguns períodos o livre arbítrio e a predestinação divina no mesmo livro podem ser o desejo do autor ou um acréscimo literário feito por outro redator.
Entretanto podemos dizer que não é errado acreditar que a vocação está no desejo ou na escolha da pessoa como disse Jesus quando viu a multidão ao seu redor – “Vinde a mim” (Mt 11 28-30) – ou podemos nos remeter ao Antigo Testamento quando Moisés fala das bênçãos e maldições – “Se ouvires a voz do Senhor teu Deus” (Dt 28,1) – uma condicional ou livre arbítrio. No entanto podemos verificar por outro lado os textos que estão relacionados à predestinação por exemplo nas cartas paulinas “predestinou por amor” (Ef 1,4-5) ou em textos como predestinou justificou e glorificou (Rom 8 28:30).
EAD Anhembi Morumbi, 2022


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