Justiça dos Homens x Justiça de Cristo: A História de Bartimeu e a Caminhada entre Duas Jericó


A cura do cego Bartimeu é um dos momentos mais impactantes do ministério de Jesus. Esse encontro, registrado nos Evangelhos Sinóticos (Mateus 20, Marcos 10 e Lucas 18), transcende o milagre físico: trata-se de uma poderosa exposição do contraste entre a justiça excludente dos homens e a justiça restauradora de Cristo.

Além da mensagem espiritual, o texto levanta questões interessantes do ponto de vista histórico, arqueológico e até mesmo narrativo. Jesus estava entrando ou saindo de Jericó? Havia mesmo duas Jericó? Quem era Bartimeu, e há verdade histórica na ideia de que ele teria sido cegado como punição por uma traição militar de seu pai? Esta matéria reúne as principais evidências e reflexões sobre esse episódio memorável.


O Cego de Jericó: Bartimeu ou outro?

Três Evangelhos mencionam esse milagre:
-Mateus 20:29-34 relata dois cegos sendo curados ao saírem de Jericó.
-Marcos 10:46-52 cita um cego chamado Bartimeu, também na saída da cidade.
-Lucas 18:35-43, porém, narra o milagre na entrada de Jericó.

Apesar das diferenças de ênfase, estudiosos concordam amplamente que trata-se do mesmo evento, com variações naturais nos relatos dos evangelistas, que destacam elementos distintos conforme seu público e propósito.


Duas Jericó: Uma Explicação Histórica

Aparentes contradições sobre a localização do milagre — se foi na entrada ou na saída de Jericó — encontram resposta plausível e bem fundamentada na arqueologia e na história:

1. Jericó Antiga:
Conhecida desde os tempos de Josué, a "Cidade das Palmeiras" foi conquistada e destruída (Js 6).
No tempo de Jesus, suas ruínas ainda eram visíveis e ficavam em um tell ao norte da nova cidade.


2. Jericó Herodiana:
Reconstruída por Herodes, o Grande, como um resort de inverno.
Contava com palácios, jardins, aquedutos e estradas, e ficava a cerca de 1,5 km da Jericó Antiga.

Assim, quando os evangelhos dizem que Jesus estava saindo de Jericó (Marcos e Mateus) e entrando nela (Lucas), isso pode perfeitamente indicar o trajeto entre a cidade antiga e a nova. A arqueologia confirma a existência de duas Jericó distintas nesse período, solução que reconcilia os relatos sem contradizê-los.


Bartimeu: Quem era? E por que era cego?

O Evangelho de Marcos nos dá seu nome: Bartimeu, que significa "filho de Timeu". O uso do prefixo aramaico “Bar-” indica a tradição judaica. É o único cego curado por Jesus cujo nome é registrado nos Evangelhos — o que pode sugerir que ele se tornou uma figura conhecida entre os primeiros cristãos.


Mas por que Bartimeu era cego...?

Algumas tradições orais tardias (sem base bíblica ou histórica sólida) sugerem que Bartimeu era filho de um militar chamado Timeu que, por trair Roma, teve os olhos arrancados — e toda a sua casa foi punida, inclusive o filho.

Apesar de dramática e curiosa, essa história:
-Não possui suporte nas Escrituras.
-Não é confirmada por fontes judaicas, romanas ou patrísticas.
-Pode ter se originado como explicação devocional ou literária para dramatizar a redenção.


A justiça de Roma e a questão das mutilações

No sistema jurídico romano, a punição oficial para traidores (perduellio) incluía:
-Execução (crucificação, decapitação)
-Exílio
-Confisco de bens
-Infâmia pública

A mutilação, como a remoção dos olhos, não era prática jurídica comum, mas poderia ocorrer em casos extraordinários, especialmente:

-Como vingança pessoal
-Entre prisioneiros de guerra
-Em conflitos políticos brutais

Ou seja, não era regra, mas podia acontecer em contextos marginais, especialmente fora dos tribunais formais. Portanto, a ideia de uma punição assim contra Timeu não é impossível, mas carece de evidência histórica confiável.


A Cultura Religiosa e a Exclusão dos Cegos

No judaísmo do 1º século, a cegueira era frequentemente associada a pecado pessoal ou familiar (cf. João 9:2). Isso tornava o cego:
-Socialmente marginalizado
-Impedido de entrar plenamente no Templo
-Dependente da caridade alheia
-Alvo de julgamentos morais

É nesse contexto que Bartimeu clama por Jesus, contrariando a multidão que o manda calar. Sua atitude revela fé ousada, e sua cura simboliza restauração completa: física, espiritual e social.


A justiça de Cristo: restaura e ouve o clamor dos esquecidos

Jesus para, ouve, chama e cura. Ele não se detém no “por que” da cegueira, mas pergunta: “Que queres que eu te faça?” (Marcos 10:51). Essa pergunta quebra o paradigma da justiça humana, que tenta explicar o sofrimento como punição.

Cristo oferece:
-Dignidade: o homem volta a enxergar
-Chamado: Bartimeu o segue pelo caminho
-Inclusão: de mendigo à beira do caminho a discípulo caminhando com o Mestre

A história de Bartimeu nos ensina que:
-A justiça dos homens é seletiva, limitada e, muitas vezes, excludente.
-A justiça de Cristo é compassiva, restauradora e aberta a quem clama com fé.
-Mesmo quando os sistemas (políticos ou religiosos) marginalizam, Jesus para para ouvir e responder ao clamor do coração.

Entre a antiga Jericó em ruínas e a nova Jericó construída por Herodes, Jesus realiza o que nem Roma nem a religião podiam fazer: Ele cura por graça, não por merecimento.

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