Todo final de ano traz consigo um momento inevitável e, ao mesmo tempo, precioso para a igreja: a renovação das lideranças. É o instante em que olhamos para trás com gratidão — e para frente com senso de missão. Contudo, esse período também exige vigilância espiritual, honestidade pastoral e coragem para reafirmar aquilo que a Bíblia ensina sobre ministério: não é status. É cruz. Não é título. É responsabilidade. Não é posição. É serviço no poder do Espírito Santo.
Assim como a figura medieval acima mostra honra e responsabilidade, o reino de Deus cobra isso de cada servo.
Esse é um momento precioso; porém, se não for conduzido com discernimento, pode se tornar um território espiritual perigoso. Gratidão é bíblica. Bajulação é carnal. Honra edifica. Exaltação destrói. E todos nós, pastores, sabemos como essa linha pode ser tênue — às vezes invisível.
1. A linha invisível entre gratidão e bajulação
Quem serve há muitos anos no ministério sabe: nem toda homenagem edifica. Quando o coração se acostuma a elogios exagerados, o servo começa a acreditar que é mais do que realmente é (Rm 12:3). E liderança contaminada pelo orgulho é terreno fértil para queda, frustração e divisão.
Infelizmente, nossas igrejas — de todas as denominações — já testemunharam momentos em que celebrações bem intencionadas ultrapassaram o limite da gratidão saudável e se transformaram em bajulação. Quando isso acontece, dois danos surgem:
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O líder homenageado perde o senso de dependência do Espírito Santo.
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A igreja passa a confundir carisma com santidade e simpatia com autoridade espiritual.
Gratidão é bíblica (1 Ts 5:12-13). Bajulação é pecado (Pv 29:5).
E discernir a linha entre as duas exige ousadia pastoral.
2. A armadilha das honrarias mal administradas
Apesar do perigo, a liderança fiel merece ser reconhecida. A Palavra nos orienta a honrar os que trabalham, cuidam e admoestam no Senhor (Hb 6:10). A Igreja Adventista da Promessa possui uma longa tradição de ministérios leigos dedicados, que carregam a obra com amor, simplicidade e sacrifício.
Por isso, precisamos agradecer — de verdade — os que concluíram seu ciclo de serviço. Pastores, presbíteros, diáconos, líderes de ministérios, professores, voluntários: cada um carrega parte da missão.
A gratidão fortalece a alma do servo. A bajulação enfraquece. E aqui entra o equilíbrio que precisamos cultivar.
3. Quando a homenagem estraga o que Deus construiu - Ministério Não É Palco, É Altar
A renovação da diretoria não é apenas uma cerimônia administrativa. É um momento pedagógico — onde reafirmamos o que Deus espera de cada líder.
Ministério não é privilégio, é sacrifício.
Não é comodidade, é prontidão.
Não é vanglória, é renúncia.
Não é adereço, é responsabilidade eterna.
Jesus não chamou líderes para um camarim. Chamou para carregar uma cruz negando a si mesmo (Mc 8:34).
Na teologia promessista, enfatizamos a vida no Espírito, a santidade prática e a missão integral. Isso significa que cada novo líder precisa entrar no ano com uma convicção clara:
Não basta fazer. Precisa fazer no Espírito.
4. O dilema pastoral: homenagear ou não homenagear?
Todo final de ano, pastores lidam com essa pergunta: “Devo conceder honrarias a alguns irmãos?”
O título de “Diácono Honorário”, por exemplo, pode ser uma bela forma de reconhecer décadas de serviço fiel.
Mas também pode ser interpretado como um pedestal, um lugar de supremacia, um troféu espiritual.
E a pergunta bíblica deveria sempre ser:
Isso vai fortalecer o coração do servo — ou inflá-lo?
Isso vai edificar a igreja — ou gerar comparação e disputa?
E se a resposta não for clara em seu coração, então é melhor esperar.
Honrar exige maturidade. E honrar exige ouvir o Espírito Santo — não as expectativas da assembleia, da diretoria ou das tradições.
5. Um caminho equilibrado e bíblico para honrar sem ferir
Não precisamos eliminar homenagens. Precisamos santificá-las.
Podemos tentar apresentar alguns princípios, que podem trazer maior segurança ao pastor ao aplicar:
a) Honre o trabalho, não o trabalhador.
A glória é de Cristo. O servo é vaso; o fruto vem do Espírito.
(1 Coríntios 3:7)
b) Use linguagem de humildade, não de exaltação.
Nada de “exemplo máximo”, “referência suprema”, “patrimônio da igreja”.
Isso beira idolatria.
c) Faça a homenagem apontando para o Senhor, não para o ego.
O servo deve sentir responsabilidade — não glória.
d) Conceda a honraria somente a quem o tempo quebrou, moldou e amadureceu.
Honra sem maturidade vira veneno.
e) Mantenha o ambiente simples e espiritual.
Sem espetáculo. Sem exageros.
Com oração, sobriedade e temor.
6. Uma Orientação Pastoral aos que Entram e aos que Saem
Aos que concluem sua missão:
Obrigado. Verdadeiramente.
Seu trabalho, conhecido ou silencioso, foi visto pelo Senhor (Hb 6:10).
Mas receba também um alerta: o fim de um ciclo é terreno fértil para dois extremos perigosos — tristeza orgulhosa (“ninguém fará tão bem quanto eu”) ou alívio carnal (“ainda bem que acabou”).
Ambos são distorções do coração.
Descanse, mas não desligue da missão. A aposentadoria no Reino só acontece na glória.
Aos que assumem para uma jornada tenha em mente:
O nome na lista dos ministérios da igreja não garante unção.
O cargo na ata não substitui o óleo do Espírito. Ore e procure a direção de Deus para o seu cargo.
E o reconhecimento público não necessariamente reflete maturidade espiritual.
Entrem com temor. Entrem com humildade.
Entrem com disposição para aprender e ser moldado.
Você está no palco e todos estão vendo o que você faz a partir de agora. Tudo que fizer deve ser para glorificar a Deus. Não esperem aplausos para você.
Busquem o secreto.
Busquem a cruz.
Busquem o Espírito Santo (At 1:8).
7. Um Momento de Oração e Envio
A imposição de mãos para os novos líderes não é uma formalidade. É um ato espiritual de responsabilidade profunda (At 13:2-3). É o reconhecimento de que ninguém serve pela força da carne, mas pela capacitação do Espírito Santo.
Durante esse culto, oraremos; para que o Espírito Santo consagre cada líder.
Para que haja unidade entre ministérios.Para que a Junta Diaconal continue sendo suporte fundamental ao pastorado.
Para que os presbíteros mantenham o zelo doutrinário tão caro à Promessa.
Para que os Ministérios da Criança, Jovens, Mulheres e Homens avancem com propósito.
Para que a Assistência Social continue expressando o amor prático do Reino.
Para que os professores de estudos bíblicos sigam firmes na Palavra.
Servimos porque fomos chamados.
E permanecemos porque fomos capacitados.
8. Que Tipo de Igreja Queremos Formar?
Se formarmos líderes que amam aplausos, teremos uma igreja fraca.
Se formarmos líderes que amam a cruz, teremos uma igreja viva.
E a igreja, desde sua origem, nasceu para viver no equilíbrio: pneuma e Palavra, carisma e caráter, serviço e santidade.
Que este texto ajude outros pastores, líderes e igrejas neste final de ciclo.
Que nos ajude a evitar os excessos emocionais, as vaidades disfarçadas e os perigos das homenagens mal compreendidas.
E que nos conduza a uma espiritualidade mais sóbria, madura, profunda e fiel.
Fontes:
Bíblia Sagrada — ARA:https://www.bibliaonline.com.br/ara
Declaração de Fé – Igreja Adventista da Promessa:
https://iap.org.br/declaracao-de-fe
“Servir No Poder do Espírito” – Artigos e reflexões promessistas:
https://iap.org.br
Enciclopédia Bíblica – Comentários contextuais sobre liderança cristã (Hb 6:10; At 13:2–3; 1 Ts 5:12–13):
https://www.bibliaonline.com.br/commentary


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