Por que o espírito questionador não é inimigo da fé - e por que o desigrejamento não é solução
Vivemos um tempo de intensas transformações culturais, espirituais e eclesiológicas. Novas linguagens surgem, antigas certezas são questionadas e, junto com isso, ventos de doutrinas reaparecem — muitas vezes não como negações explícitas da fé cristã, mas como releituras sutis, espiritualmente atraentes e teologicamente perigosas.
Nesse cenário, cresce a necessidade de recuperar algo que nunca deveria ter sido perdido: a vigilância teológica.
O espírito questionador: ameaça ou aliado da fé?
Há quem confunda fé com ausência de perguntas. Mas a fé bíblica nunca foi inimiga do pensamento. Pelo contrário, ela sempre caminhou ao lado do discernimento, do exame e da responsabilidade espiritual.
O problema não está em questionar
O perigo surge quando o questionamento atinge o alicerce, e não as interpretações humanas.
Questionar métodos, tradições, leituras teológicas e aplicações culturais é saudável. Questionar a autoridade da Escritura, a centralidade de Cristo e os fundamentos da fé cristã histórica é outra coisa. A Igreja sempre cresceu quando homens e mulheres cheios do Espírito Santo pensaram profundamente a fé, sem relativizá-la.
A vigilância teológica não nasce da desconfiança, mas do amor à verdade.
“Examinai tudo, retende o bem.” (1Ts 5.21)
Esse texto não autoriza relativismo; ele exige discernimento.
A importância de compreender o outro lado
No ambiente acadêmico e pastoral, aprender a ouvir e compreender posições diferentes não é sinal de fraqueza, mas de maturidade. Conhecer os argumentos do outro lado — na linguagem dele, e não em caricaturas — é o que permite uma defesa da fé sólida, honesta e responsável.
A apologética cristã saudável não nasce da ignorância, mas do confronto informado. Sempre foi assim na história da Igreja. Pais da fé, reformadores e líderes avivados estudaram profundamente os erros de seu tempo para refutá-los com fidelidade bíblica.
a) Entender não é concordar.
b) Conhecer não é flertar.
c) Pensar não é relativizar.
O perigo não está no estudo; está na posição de onde se estuda. Quando a Escritura deixa de ser o critério final, o diálogo se transforma em negociação doutrinária.
A nova onda: o desigrejamento como “espiritualidade alternativa”
Entre as muitas tendências atuais, uma tem ganhado força de maneira silenciosa e sedutora: o movimento dos chamados “desigrejados”.
À primeira vista, parece apenas um comportamento individual — pessoas feridas, decepcionadas ou cansadas da institucionalidade. Mas, olhando mais de perto, percebe-se que o desigrejamento moderno é mais do que isso: é uma teologia disfarçada.
Ela possui premissas claras:
a) a igreja seria apenas espiritual, não visível ou organizada;
b) a instituição corromperia a fé;
c) a comunhão poderia existir sem compromisso comunitário;
d) o Espírito Santo ensinaria de forma autônoma, sem mediação do corpo;
e) liderança e autoridade espiritual seriam obstáculos, não dádivas.
Esses argumentos soam piedosos. Usam textos bíblicos isolados. Apelam à liberdade espiritual. Mas, no conjunto das Escrituras, não se sustentam.
O erro estrutural do desigrejamento
O problema central dessa visão é simples e grave: ela separa o que Deus nunca separou.
a) Cristo e o Corpo.
b) Cabeça e membros.
c) Espírito e comunidade.
d) Fé e submissão mútua.
e) A Bíblia não conhece cristianismo solitário.
f) Conhece igreja imperfeita sendo santificada.
Desde Atos dos Apóstolos até as cartas pastorais, a fé cristã é vivida em comunidade, com ensino, correção, partilha, disciplina e missão. Não existe discipulado isolado, maturidade sem prestação de contas ou santificação sem relacionamento.
O desigrejamento, no fundo, não elimina problemas; ele apenas elimina o confronto. Onde não há comunidade, não há correção. Onde não há liderança, não há cuidado. Onde não há submissão, não há formação de caráter cristão.
O papel pastoral e a responsabilidade com a próxima geração
Aqui entra uma responsabilidade inegociável do ministério pastoral: guardar o rebanho e proteger a fé da próxima geração.
O episcopado bíblico não é controle, nem autoritarismo. É cuidado, vigilância e ensino fiel.
a) “Olhai por vós e por todo o rebanho…” (At 20.28)
b) “Apegado à fiel palavra… para exortar com a sã doutrina e convencer os que contradizem.” (Tt 1.9)
Pastores não são chamados apenas para administrar cultos, mas para discernir tempos, identificar erros emergentes e formar pessoas enraizadas em Cristo.
A nova geração não perderá sua identidade cristocêntrica por falta de informação, mas por falta de formação. Onde a igreja se torna apenas evento, agenda e consumo religioso, discursos alternativos ganham força.
A melhor resposta ao desigrejamento não é apenas apologética verbal, mas uma igreja viva, bíblica, relacional e discipuladora.
Vigilância não é medo do novo — é fidelidade ao eterno
Ser vigilante não significa rejeitar tudo o que é novo, nem fechar os olhos à ciência, à cultura ou aos desafios contemporâneos. Significa discernir, filtrar e submeter tudo à autoridade das Escrituras.
A Igreja Adventista da Promessa, fiel à sua herança bíblica e pentecostal, sempre afirmou que:
a) A Bíblia é a Palavra de Deus;
b) Cristo é o centro da fé;
c) O Espírito Santo age no corpo, não à margem dele;
e) A igreja local é espaço de formação, missão e santificação.
Preservar isso não é conservadorismo vazio. É responsabilidade espiritual.
A vigilância teológica não produz medo. Ela produz segurança, clareza e legado.
E quando vemos jovens permanecendo na fé, discernindo erros, amando a igreja e servindo com consciência, percebemos que o peso do ministério vale a pena.
Não se trata de resistir ao futuro. Trata-se de garantir que o futuro ainda reconheça o Evangelho.
Pr Ademir Rodrigues
FONTES:
Declaração de Fé – Igreja Adventista da Promessa
https://adventistadapromessa.org.br/declaracao-de-fe/
John Stott – A Igreja Autêntica
Dietrich Bonhoeffer – Vida em Comunhão
Augustus Nicodemus – Cristianismo sem igreja?
Franklin Ferreira – Igreja e autoridade espiritual


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