Dependência de Profecias: Sinal de Fé ou de Imaturidade?

Ao longo da história da igreja, Deus sempre falou com Seu povo. Ele falou por meio dos profetas, por visões, sonhos, sinais e, de maneira suprema, por meio do Seu Filho. A questão central nunca foi se Deus fala, mas como o povo de Deus aprende a ouvir. Em contextos pentecostais, como o nosso, esse tema exige maturidade, discernimento e coragem pastoral para correção.

Nos últimos anos, tem-se observado um fenômeno preocupante: cristãos que permanecem na igreja, participam dos cultos regularmente, mas vivem em constante expectativa de que Deus fale com eles exclusivamente por meio de profecias. Para alguns, se não houver uma palavra profética direta, personalizada e sobrenatural em cada culto, concluem que Deus não falou. Em casos mais graves, chegam a afirmar que só continuarão na igreja ou só retornarão a ela se Deus “voltar a falar”.

Essa postura, embora revestida de linguagem espiritual, revela imaturidade cristã, não fé madura.

A Escritura afirma que Deus falou muitas vezes e de muitas maneiras, mas que agora falou definitivamente por meio do Filho (Hb 1:1-2). Isso não significa que Deus deixou de agir sobrenaturalmente, nem que os dons espirituais perderam validade. Significa, porém, que a revelação normativa da vontade de Deus foi estabelecida, e que a Palavra escrita passou a ocupar um lugar central e suficiente na formação do cristão.

Quando alguém rejeita o ensino bíblico, o estudo das Escrituras e a exortação pastoral como meios legítimos da voz de Deus, essa pessoa não está demonstrando sensibilidade espiritual, mas resistência ao amadurecimento. O apóstolo Paulo afirma que toda a Escritura é inspirada por Deus e plenamente suficiente para ensinar, corrigir, repreender e instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra (2Tm 3:16-17). Negar isso, ainda que de forma prática e não verbal, é negar a suficiência da Palavra.

Esse tipo de espiritualidade dependente do extraordinário encontra um paralelo claro na figura de Balaão. Balaão ouviu Deus, falou em nome de Deus e foi usado em um momento-chave da história redentiva. No entanto, nunca se submeteu verdadeiramente à vontade divina. Ele desejava revelação sem transformação, direção sem renúncia, palavra sem obediência. Por isso, tornou-se exemplo negativo nas Escrituras, citado como advertência para a igreja (2Pe 2:15; Jd 11; Ap 2:14).

A Jumenta de Balaão - um conto inédito do livro de Gabriel Campos Medeiros

Balaão simboliza o perigo de uma fé que busca sinais, mas evita compromisso. Pessoas assim vivem em função de experiências espirituais, mas não desenvolvem caráter, discernimento nem obediência contínua. Confundem intensidade emocional com maturidade espiritual. Tornam-se dependentes de cultos “fortes”, mas frágeis na vida cristã cotidiana.

A tradição da igreja nunca separou a ação do Espírito Santo da centralidade da Palavra. Cremos no batismo no Espírito Santo, nos dons espirituais e na atuação sobrenatural de Deus, mas afirmamos com igual convicção que o Espírito Santo fala por meio da Escritura, ilumina o entendimento e conduz o crente à prática da verdade. Pentecostalismo saudável não é anti-intelectual; é bíblico, responsável e formador de discípulos maduros.

Daniel é um exemplo claro disso. Profeta usado por Deus em revelações extraordinárias, ele também foi um estudioso atento das Escrituras, reconhecendo nelas a voz de Deus para o seu tempo (Dn 9:2). Esdras preparou o coração para buscar a Lei do Senhor, praticá-la e ensiná-la (Ed 7:10). Em nenhum momento a Bíblia opõe o estudo à ação do Espírito; pelo contrário, o Espírito Santo age por meio da Palavra que Ele mesmo inspirou.

Quando alguém afirma que “Deus não falou” porque não recebeu uma profecia direta, ignora que Deus pode já ter falado - e claramente - por meio da Escritura, do ensino, da correção e da exortação. Em muitos casos, o chamado “silêncio de Deus” não é ausência divina, mas provação espiritual. Deus não repete a revelação porque espera obediência, não nova informação.

Jesus declarou que são bem-aventurados os que não viram e creram (Jo 20:29). A fé madura não exige sinais constantes para continuar obedecendo. Ela se apoia na Palavra, caminha em discernimento e aceita que Deus fala também - e muitas vezes principalmente - pelo caminho da instrução, da disciplina e da prática diária da fé.

A igreja não foi chamada para produzir dependentes crônicos de profecias, mas discípulos maduros, capazes de discernir a vontade de Deus à luz das Escrituras. Profecia não substitui caráter. Experiência não substitui obediência. Revelação sem prática produz engano.

Esse é um chamado necessário à liderança: formar uma igreja que valorize a ação do Espírito Santo, mas que caminhe firmemente rumo à maturidade bíblica, teológica e espiritual. O verdadeiro avivamento não se sustenta apenas em manifestações, mas em vidas transformadas, ensináveis e submissas à vontade de Deus já revelada.


Referências

Gordon D. Fee - Paulo, o Espírito e o Povo de Deus

Craig S. Keener - O Espírito Santo para os dias de hoje

Postar um comentário

0 Comentários