Nem todo líder precisa pregar: governo de dons é maturidade pastoral

Em muitas igrejas, um dilema silencioso tem se repetido: líderes com grande conhecimento, formação acadêmica sólida e boa intenção, mas que não conseguem comunicar com clareza no púlpito. O resultado quase sempre é o mesmo: a igreja sai confusa, comentários surgem nos corredores — “o que ele quis dizer?” — e o pastor se vê dividido entre honrar o líder ou proteger a comunidade.

É preciso dizer com honestidade pastoral: isso não é um problema de caráter, nem de espiritualidade; é um problema de função.

Conhecimento não é sinônimo de chamado ao púlpito

A Bíblia nunca ensinou que todo líder deve pregar publicamente. Pelo contrário, ela alerta: “Meus irmãos, não sejam muitos de vós mestres…” (Tiago 3:1)

O ensino público exige algo além de conhecimento: clareza, discernimento do essencial e capacidade de síntese. Um líder pode dominar profundamente um assunto e, ainda assim, não conseguir traduzi-lo de forma acessível para a igreja local. Quando isso acontece, insistir no púlpito não edifica — confunde.

Pregar não é falar muito. Pregar é fazer o povo entender e responder à Palavra. “Se a trombeta der sonido incerto, quem se preparará para a batalha?” (1 Coríntios 14:8)

O púlpito não é prêmio, é responsabilidade

Um erro comum na liderança cristã é tratar o púlpito como reconhecimento de currículo ou tempo de igreja. Isso é perigoso. O púlpito não é lugar para experimentação nem para provar erudição. Ele é um espaço de serviço à compreensão da comunidade.

Uma regra simples, mas poderosa, pode ajudar qualquer pastor: Se o pregador não consegue resumir sua mensagem em uma ou duas frases claras, ele ainda não sabe o que vai pregar.

Se a igreja não consegue repetir a ideia central ao sair do culto, a pregação falhou — ainda que o conteúdo estivesse correto.

Governo de dons: proteger a igreja e o líder

Quando um pastor percebe que um líder não se comunica bem no púlpito, duas tentações surgem:

        a) insistir, por consideração pessoal;
        b) afastar, por frustração.

Ambas são ruins.

A alternativa bíblica é o governo de dons. “Servi uns aos outros, cada um conforme o dom que recebeu.” (1 Pedro 4:10)

Nem todo dom é verbal. Nem todo ministério é público. Há líderes que florescem:

        a) no aconselhamento,
        b) na formação de outros líderes,
        c) na música,
        d) na organização,
        e) no cuidado pastoral silencioso.

Reposicionar um líder não é rebaixá-lo. É honrá-lo corretamente.

Música também é ensino

Muitos subestimam o ministério da música, mas a Escritura é clara: “Instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente… com salmos, hinos e cânticos espirituais.” (Colossenses 3:16)

Há pessoas que comunicam melhor por meio da música do que pela palavra falada. Usar esse dom não é improviso — é discernimento espiritual.

Liderança madura sabe dizer “não” sem desvalorizar

Um pastor que protege o púlpito: protege a igreja, protege o líder, e protege a doutrina.

Nem todo líder precisa pregar. Mas todo líder precisa ter um lugar onde seu dom edifique.

Igrejas não se perdem por falta de doutrina escrita, mas por excesso de doutrina mal comunicada.
E pastores não fracassam por reconhecer limites — fracassam quando os ignoram.

O púlpito não é lugar para dizer tudo o que se sabe, mas para dizer tudo o que a igreja precisa entender.

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