O relato da cura dos dez leprosos, em Lucas 17:11–19, costuma ser lembrado como uma lição simples sobre gratidão. No entanto, essa leitura, embora verdadeira, é insuficiente. O texto é mais profundo, mais confrontador e mais atual do que normalmente admitimos. Ele não fala apenas sobre agradecer a Deus, mas sobre como as pessoas reagem à graça quando ela rompe estruturas sociais, religiosas e sanitárias profundamente excludentes.
No contexto do primeiro século, a lepra não era apenas uma enfermidade. Era uma sentença de exclusão total. Segundo a Lei de Moisés (Levítico 13–14), o leproso deveria ser examinado pelo sacerdote, declarado impuro e afastado do convívio social. Ele vivia fora do arraial, separado da família, impedido do culto e marcado publicamente como alguém contaminado. Não se tratava apenas de cuidado médico, mas de um rígido sistema sanitário-religioso que visava conter a contaminação e preservar a comunidade. O preço, porém, era alto: o leproso perdia sua identidade social, espiritual e até afetiva.
Quando Lucas diz que dez leprosos estavam “de longe” e clamaram por Jesus, isso não é detalhe narrativo. Eles estavam obedecendo à lei. Não podiam se aproximar. Não podiam tocar. Não podiam esperar acolhimento. O simples fato de Jesus ouvi-los já é um gesto de ruptura com a lógica dominante da exclusão.
Jesus não os toca, não os isola ainda mais e não os submete imediatamente ao sistema sacerdotal. Ele lhes dá uma palavra: “Ide e mostrai-vos aos sacerdotes”. A cura acontece no caminho, enquanto obedecem. Isso revela um princípio central do Reino: a graça precede a validação institucional. Primeiro vem a ação de Deus, depois a reintegração social e religiosa.
Muitos desejam receber a cura, o livramento ou a bênção de Deus, mas não permitem que essa experiência produza transformação interior. Ao não se submeterem à Palavra, nem abrirem o coração para um compromisso real com Cristo, seguem a vida religiosa sem conversão verdadeira. A cura resolve a necessidade imediata, mas não redefine o caminho; a bênção alivia a dor, mas não gera, por si só, arrependimento e fé salvadora.
Ser curado ou abençoado por Deus não significa, automaticamente, ser transformado. Quando não há mudança de mente, de direção e de relacionamento com Cristo, a experiência fica incompleta. É possível experimentar o poder de Deus e ainda assim permanecer distante da salvação, pois esta não se alcança apenas pelo milagre recebido, mas pela fé que responde, retorna e se rende ao Senhorio de Jesus.
O número dez também não é acidental. No judaísmo, dez representam uma totalidade suficiente — o número mínimo para formar uma assembleia reconhecida (minyan). Lucas está mostrando que a graça alcançou o grupo completo, a comunidade inteira dos excluídos. Todos ouviram a mesma palavra. Todos receberam a mesma cura. Todos tiveram a mesma oportunidade.
No entanto, apenas um voltou
E Lucas faz questão de destacar que esse um era samaritano — alguém considerado herege, impuro e espiritualmente suspeito aos olhos do judaísmo oficial. Enquanto os outros nove seguiram para os sacerdotes em busca da reintegração social, religiosa e legal, aquele homem retorna a Jesus, glorificando a Deus em alta voz e prostrando-se aos seus pés. O gesto não é apenas de gratidão; é de adoração e reconhecimento de autoridade.
Jesus então faz uma pergunta que atravessa os séculos: “Não foram dez os curados? Onde estão os nove?” Essa pergunta não nasce da curiosidade, mas do juízo espiritual. Os nove não estavam errados. Eles obedeceram, foram curados e seguiram o caminho esperado. O problema é que pararam no benefício e não avançaram para o relacionamento.
A declaração final de Jesus é decisiva: “Levanta-te e vai; a tua fé te salvou”. O verbo usado por Lucas (sōzō) não significa apenas curar, mas salvar, libertar, restaurar plenamente. Os dez foram curados fisicamente. Apenas um foi salvo integralmente. A diferença não está no milagre recebido, mas na resposta dada ao Cristo que realizou o milagre.
Esse texto confronta diretamente a igreja contemporânea. Vivemos um tempo em que muitos buscam a bênção, a cura, a solução e a restauração, mas poucos retornam para reconhecer quem Jesus realmente é. Celebramos milagres, mas nem sempre formamos adoradores. Crescemos em atividades, mas nem sempre em discernimento espiritual. Muitas vezes, corremos para os “sacerdotes” modernos — estruturas, sistemas, reconhecimentos — sem antes nos rendermos aos pés de Cristo.
Lucas 17:11–19 nos lembra que milagres não são o fim do caminho, mas o início. A fé que salva é a fé que retorna. A verdadeira espiritualidade não termina na cura, mas culmina na adoração. E a pergunta de Jesus continua ecoando na igreja de hoje: onde estão os outros nove?
Pr Ademir Rodrigues


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