Como cristãos, temos o direito de escolher, mas também a responsabilidade de discernir
Em períodos eleitorais, é natural que surjam entre nós diferentes opiniões sobre partidos, candidatos e propostas para o país. Alguns se identificam mais com ideias de esquerda; outros, com ideias de direita. Há ainda aqueles que não se sentem representados integralmente por nenhuma dessas linhas. Essa diversidade faz parte da liberdade que temos como cidadãos e não deve ser motivo para dividir a igreja.
A Igreja Adventista da Promessa não determina em quem seus membros devem votar, e o pastor não tem autoridade para impor uma escolha partidária à igreja. Cada cidadão possui liberdade de consciência e de convicção política, e a própria Constituição brasileira protege essa liberdade. O voto é uma responsabilidade pessoal. Por isso, cada irmão e cada irmã deve conhecer as propostas, observar a trajetória dos candidatos, avaliar suas posições e tomar sua decisão com responsabilidade e consciência.
Entretanto, liberdade de escolha não significa ausência de discernimento.
A igreja tem o dever de alertar seus membros para que não escolham apenas pela emoção, pela amizade, pela influência das redes sociais, pela popularidade de um candidato ou pela rejeição a determinado grupo político. Também precisamos compreender que diferentes linhas de governo carregam valores, prioridades e consequências que podem favorecer determinados aspectos da sociedade e, ao mesmo tempo, produzir problemas em outras áreas.
Há propostas da esquerda que podem chamar nossa atenção pela preocupação com os pobres, com os trabalhadores, com a redução das desigualdades e com a proteção dos vulneráveis. Essas preocupações não são estranhas à Bíblia. A Palavra de Deus nos chama a defender o necessitado, praticar a justiça e cuidar daqueles que sofrem. Por outro lado, determinadas correntes de esquerda podem defender concepções sobre sexualidade, família, vida, autoridade moral e papel do Estado que entram em tensão com princípios claramente apresentados nas Escrituras.
Também existem propostas da direita que podem encontrar pontos de convergência com princípios cristãos, como a valorização da família, a responsabilidade individual, a liberdade religiosa, a defesa da vida, a livre iniciativa e a preocupação com a segurança. Porém, isso não significa que tudo o que vem da direita seja automaticamente cristão. O individualismo excessivo, a valorização exagerada do poder econômico, o nacionalismo, a intolerância, o autoritarismo ou a transformação de determinados líderes políticos em figuras quase salvadoras também podem entrar em conflito com os valores do Evangelho.
Por isso, o cristão não deve entregar sua consciência a uma ideologia.
Não devemos perguntar apenas: “De que lado está este candidato?”. Precisamos perguntar: “O que este candidato defende? Quais são suas prioridades? Como pretende alcançá-las? Quais serão as possíveis consequências de suas propostas? E como essas ideias se relacionam com os princípios que encontro na Palavra de Deus?”
Esse exercício exige maturidade.
Não existe candidato perfeito, partido perfeito ou projeto político capaz de solucionar todos os problemas humanos. A política pode organizar a sociedade, estabelecer leis, administrar recursos e contribuir para o bem comum, mas nenhum governo consegue resolver a raiz dos problemas humanos. A Bíblia nos lembra que o pecado também está no coração das pessoas. Por isso, não podemos colocar em um presidente, governador, senador ou deputado a esperança que pertence somente a Deus.
Também precisamos tomar cuidado com outra armadilha: confundir valores cristãos com determinada identidade política. Um cristão pode ser conservador em alguns assuntos e discordar da direita em outros. Pode concordar com determinadas propostas da esquerda sem assumir toda a sua visão de mundo. Pode votar em um candidato em uma eleição e, posteriormente, reconhecer seus erros e criticá-lo. Isso não é incoerência; pode ser simplesmente resultado de uma consciência que procura avaliar cada situação com responsabilidade.
Nossa fidelidade maior não é a um partido. Não é à esquerda. Não é à direita. Não é a um candidato. Nossa fidelidade é a Cristo.
Paulo nos orienta: “Examinai tudo. Retende o bem” (1 Tessalonicenses 5:21). Esse princípio também deve orientar nossa participação na vida pública. Precisamos examinar, comparar, pensar e decidir. Não devemos aceitar uma informação apenas porque foi publicada por alguém de quem gostamos, nem rejeitá-la apenas porque veio de alguém de quem discordamos.
As escolhas políticas também terão consequências. Algumas poderão produzir resultados positivos; outras poderão trazer problemas que não foram previstos. Por isso, precisamos ter humildade para reconhecer que nossa escolha não nos torna donos da verdade e que nenhum resultado eleitoral coloca o futuro completamente sob nosso controle.
A nossa segurança, em última instância, não está no resultado de uma eleição.
Podemos votar e, depois, descobrir que o governo escolhido tomou decisões com as quais não concordamos. Podemos votar em alguém acreditando que determinadas promessas serão cumpridas e descobrir posteriormente que a realidade é muito mais complexa. Podemos até perder uma eleição na qual acreditávamos estar fazendo a melhor escolha.
Mas existe algo que não muda: Deus continua sendo Deus.
O Salmo 146:3 nos adverte: “Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação”. Nossa esperança não pode estar depositada em homens. Governantes passam. Partidos mudam. Ideologias se transformam. Projetos políticos surgem e desaparecem. Mas o Senhor permanece.
Isso não significa abandonar a responsabilidade cidadã. Pelo contrário. Justamente porque pertencemos a Cristo, devemos participar da sociedade com responsabilidade, honestidade, respeito e discernimento. Devemos votar, quando temos esse direito, conscientes de que nossa decisão também expressa aquilo que entendemos ser melhor para a sociedade.
E depois da eleição, nossa missão continua.
Se o candidato que escolhemos vencer, não devemos tratá-lo como alguém acima de críticas. Se perder, não devemos viver em desespero. Se o governo acertar, devemos reconhecer. Se errar, devemos questionar com respeito e firmeza. O cristão não precisa defender o erro simplesmente porque veio do “seu lado”.
Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade cristã na vida pública:
ser capaz de reconhecer a verdade, mesmo quando ela favorece alguém de quem discordamos, e reconhecer o erro, mesmo quando ele vem de alguém em quem confiamos.
A igreja não existe para formar eleitores de esquerda ou de direita. Existe para formar discípulos de Jesus Cristo.
Por isso, cada um exerça sua liberdade de consciência, estude, compare, ore e escolha com responsabilidade. Não permita que a paixão política destrua a comunhão entre irmãos. Não transforme o candidato em salvador, nem o adversário em inimigo pessoal. E, acima de tudo, não permita que uma preferência política ocupe no coração o lugar que pertence ao Senhor.
Podemos escolher diferentes caminhos nas urnas e continuar caminhando juntos na fé.
Porque, acima de qualquer governo humano, existe um governo que não termina: o governo de Deus.
“Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça.” - Mateus 6:33
Que nossas escolhas sejam responsáveis, nossa consciência seja livre, nosso discernimento seja bíblico e nosso coração permaneça submetido Àquele que continua sendo o verdadeiro Senhor da nossa vida.
Ademir Rodrigues
Jornalista


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